TENTATIVA DE GOLPE DE ESTADO DE 27 DE MAIO DE 1977

 🇦🇴27 DE MAIO DE 1977


COMUNICADO DO BUREAU POLITICO

SOBRE O GOLPE DE ESTADO DE 27

DE MAIO


Está praticamente desvendado todo o complexo emaranhado em que surgiu a tentativa reaccionária do golpe de estado fraccionista de 27 de Maio último, prontamente esmagado pelos militantes do MPLA, membros das FAPLA e da DISA, com o apoio das massas populares.


As verdadeiras origens e os verdadeiros objectivos do golpe confundem-se na complexidade do próprio processo contra-revolucionario.

É no entanto evidente que um determinado número de ex-prisioneiros do antigo “campo de São Nicolau”, chefiados por Ze Van-Dúnem e um punhado de responsaveis da 1ª Região, tendo à cabeça Nito Alves, manifestam desde os primeiros momentos da derrocada do fascismo colonialista, estranhas afinidades que, a partir da Conferência Inter-regional de militantes em Setembro de 1974, viriam a caracterizar-se por uma actividade politica de grupo, fora das estruturas do MPLA, mas sempre a coberto do MPLA.


A eleição daqueles dois cabecilhas para o Comite Central foi justamente fruto de uma actividade de grupo e foi facilitada pelo momento que então se vivia com o fim próximo da guerra colonial e a ofensiva imperialista contra o MPLA,inclusivamente através das chamadas "revolta activa" e "revolta do leste', fomentadas no seio do Movimento, em beneficio dos

agrupamentos fantoches da Unita e Fnla.


Confundindo-se a principio com outros grupos fraccionistas (como os Comités Amilcar Cabral, os Comités Henda e outros), dos quais se servia como trampolim, o grupo Nito Alves/Ze Van-Dúnem começa a destacar-se com maior preponderância, depois da neutralização dos concorrentes, para a qual deu alias a sua contribuição activa a direcção do MPLA.


Liquidados os grupos concorrentes rivais, o grupo Nito Alves/Ze Van-Dúnem aproveita a circunstancia de Nito Alves ter sido convidado a participar nas reuniões do Bureau Politico durante a 2 guerra de Libertação e posteriormente ter sido nomeado Ministro da Administração Interna, para não somente tentar controlar as estruturas do MPLA e os orgãos provinciais do Governo, mas ainda para iniciar a criação de uma estrutura paralela, servindo-se de militantes da sua confiança, grande parte dos quais eram portugueses que pretendiam ser os guardiões de uma “linha marxista-leninista pura" na actividade do MPLA.

Pensava o grupo Nito Alves/Ze Van-Dúnem :que isso lhes

permitiria, logo que as condicões se proporcionassem, uma tomada de poder silenciosa, com a liquidação ou o descrédito de todos aqueles que não partilhavam das suas ambições e dos seus métodos de actuacão.


Utilizavam a demagogia facil, especulando com todas as dificuldades inerentes à criação do novo estado independente, acrescidas dos problemas criados por uma violenta guerra de agressão que destruiu o pais de Norte a Sul e deixou centenas de milhares de compatriotas sem lar e sem todos os seus bens.


Essa manipulaçäo das dificuldades do nosso Povo era vestida com uma róupagem pseudo-marxista, que explorava a fundo a receptivídade que o Povo revolucionário de Angola sempre manifestou pelos ideais revolucionarios e pelo socialismo.


Foram também utilizadas as mais torpes calúnias sobre os dirigentes e militantes, que pelas suas funções, constituíam maior obstáculo ao desenvolvimento de toda a estratégia do grupo. Essas calúnias foram manuseadas grosseiramente, mas

a sua repetição sistematica não deixava de influenciar alguns camaradas, em cujo espirito se geraram dúvidas sobre a honestidade e a firmeza politica desses dirigentes e militantes.

Os fraccionistas solicitaram mesmo o apoio de alguns paises amigos para os seus planos aventureiros, não hesitando em caluniar para o efeito, junto das embaixadas, dirigentes e

militantes integros.

Os fraccionistas abusaram da boa fé do nosso Povo. Pelos seus actos, pela atitude elitista da maior parte do grupo, pela fraseologia pretensiosa e oca que utilizavam, pelas mentiras que propagavam, eles sempre revelaram um profundo desprezo pelo Povo, ao qual pensavam levianamente poder enganar.

Sempre falaram em nome das massas, mas na verdade não só se afastavam, mas desprezavam as massas com quem eram incapazes de conviver.


A própria “manifestação” com que pretendiam legitimar o golpe falhado foi um insulto a sinceridade, ao espirito revolucionario dos trabalhadores e da população dos bairros de Luanda. As poucas centenas de populares que ainda se dirigiram ao local indicado foram enganados; ninguem Ihes disse que se tratava de um golpe contra a Direcção do Movimento e contra o Camarada Presidente. E foi porque o Povo se apercebeu do logro que a “manifestação popular" abortou.


A verdade é que todo o entusiasmo e toda a capacidade de luta dos militantes do MPLA, revigorados com os sucessos da Segunda Guerra de Libertação, não conseguiram impedir que os fraccionistas abrissem brechas no nosso processo revolucionario.

A sua acção foi atentamente seguida pelos imperialistas e pelas forças reaccionarias internas, que mais não tiveram que fazer senão orientar e apoiar toda a actividade anti-MPLA que o grupo desenvolvia.


Nas forças armadas, no sector operario, nos bairros e particularmente na função pública, os reaccionarios fraccionistas, escudados nas suas divagações pseudo-marxistas, accionaram numerosos esquemas tendo em vista a liquidação da direcção do MPLA e do Governo e a sua substituição pelos seus representantes.


O ridiculo de todo este processo que faz perigar a própria independência nacional é que ele reflectia a evolução politica dos seus lideres principais, a partir de Abril 1974.

Se inicialmente Ze Van-Dúnem e Nito Alves apoiavam as suas análises em conceitos inspirados pela experiència al-banesa dos escritos de Enver Hodja, que uma pléiade de jovens militantes de grupúsculos portugueses difundia nas escolas de Angola, nos primeiros meses de 1975 essas analises passaram a ser inspiradas pelos escritos de Mao Tse-Tung sobre a revolucão chinesa.


É nos “circulos de estudo" que constituiam um dos instrumentos da clique para ir criando os seus núcleos de apoio no

seio do MPLA, Nito Alves chegou a perorar sobre uma desconexa “analise das classes em Angola" que mais não era que a transposição simplista para Angola do texto de Mao Tse-Tung sobre as classes na China.


Era a epoca da indecisão ideológica de uma parte da Juventude que, de repente passou a dispor de um manancial de literatura revolucionaria que consumia sofregamente e que imediatamente transpunha para o contexto angolano como solução para todos os problemas politicos.

Foi a época "florescente" dos Comités Amilcar Cabral e dos Comités Henda e de outros intelectuais esquerdistas na órbita dos quais gravitavam Zé Van-Dúnem e Nito Alves.


A medida porém que a acção legal do MPLA se fazia sentir com maior intensidade, a influencia daqueles grupos ia decrescendo em baneficio de um outro grupo muito mais dinâmico e muito mais ligado ao processo angolano através das funçöes que cada um dos seus elementos desempenhava nos diferentes sectores da vida nacional e em particular na Educação, na Economia e na Administração.


É a época em que Sita Vales “surge" estranhamente no conjunto e com a caução de Nito Alves assume funções de extrema importancia no Departamento de Organização de Massas do MPLA, funções que rapidamente tentou estender a outros departamentos.

O aparecimento inopinado de Sita Vales em meados de 1975 passou desapercebido. 


Vivia-se intensamente a luta contra os fantoches e os reaccionarios portugueses. Alguns progressistas portugueses apareciam a dar uma contribuição militante ao lado do MPLA sem que houvesse a preocupação de analisar essa participação ao nível dos estatutos.

Sita Vales passou assim a controlar todo um conjunto de elementos, muitos dos quais se diziam ligados ao Partido Comunista Português (PCP) — o que a seu tempo o PCP veio a desmentir.

Esse conjunto constituiu um grupo de apoio aos planos de Nito Alves e Ze Van-Dúnem, cuja acção deixara de se inspirar nas leituras de Mao Tse Tung para passar a inspirar-se nas leituras superficiais de alguns textos de Lénine e de outros autores marxistas, que nem sempre eram compreendidos e analisados dentro do seu verdadeiro contexto, mas que frequentemente eram citados para justificar esta ou aquela posi-ção do grupo fraccionista, cada vez mais activo.


Todo este processo se desenvolveu perante uma certa passividade dos órgãos dirigentes, assoberbados com a complexidade da situação que exigia soluções para os graves problemas de ordem militar que se sobrepuseram durante alguns meses aos problemas de organização do MPLA e da necessidade de clariticação ideológica.


Os fraccionistas confundiam já as massas através da difusão de conceitos palavrosos e sem qualquer significado. na revolução angolana. A prudência manifestada pela Direcção em divulgar analises que não fossem alicerçadas no estudo sério da realidade social angolana, era aproveitada para a apodar de “direitista”, O cuidado posto em apontar a realidade de 14 anos de luta armada fundamentalmente realizada pelos guerrilheiros de origem camponesa, para que não se caisse no erro grave de confundir essa etapa da luta com uma tomada de consciência da classe operaria angolana então pouco engajada no processo, tal cuidado era tomado como uma manifestação “social democrata"/ou “maoista".Os conceitos absurdos chegaram até ao “anti-sovietismo" ou ao “anticomunismo" que se atribuiam a grande parte' dos responsaveis do MPLA e do Governo.


Tão ridículas alegações não deixavam de tocar alguns militantes, uns honestos, outros ja na senda do fraccionismo. Não deixavam também de enfraquecer a resistência do aparelho do Movimento as infiltrações de toda a ordem e além disso causa-vam a desconfiança de alguns diplomatas dg paises amigos, frequentemente assediados pelo grupo.

Alguns dos grupos não se reclamavam já do nome do MPLA, havendo mesmo a tendencia em apagar da cena a presença fortemente mobilizadora do Movimento.


O pior e que as agências de espionagem do imperialismo e em particular as francesas e algumas suas aliadas europeias, não perderam tempo em avançar em largos passos para a criação aqui dos seus pontos de apoio, alguns dos quais estão hoje neutralizados.


Luanda, 12 de Julho de 1977


O o Bureau Politico do Comitê Central do MPLA.



Texto extraído e editado por Eduardo Cussendala 


Fonte: ARQUIVO LARA

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